Filosofia

TEXTO 1- A CONSCIÊNCIA MÍTICA

A CONSCIÊNCIA MÍTICA

Na narrativa mítica, encontramos segurança para a nossa perturbação inicial. Sem saber das origens, vivendo uma experiência de impotência e ignorância iniciais, atribuímos a origem de todas as coisas à força dos deuses ou do Deus supremo. Dessa forma, a narrativa mítica apazigua o espírito inquieto. Sendo a primeira forma de consciência do ser humano, a consciência mítica começa a ordenar e organizar o mundo. Assim, a formação dos mitos obedece a uma necessidade inerente do ser humano e da cultura, considerando os limites da razão e dada a essencial incompletude de nossa condição humana, também afetada pela dinâmica das emoções, da afetividade e das crenças. Ou seja, nós não somos somente, nem sequer somos em primeiro lugar, seres racionais. Nossa primeira natureza é impulsiva, emocional, necessitada de segurança. E será da nossa dimensão emotiva e intuitiva que nascerá a narrativa mítica.
No fragmento a seguir Nicola Abbagnano recorda o pensamento de Lévi-Strauss (1908-2009) um dos mais consagrados antropólogos a refletir sobre a questão dos mitos.

O mito é uma intuição compreensiva da realidade, uma forma espontânea de situar-nos no mundo, expressando a capacidade inicial de compreendê-lo. Por isso, as raízes do mito estão não na razão, mas na realidade vivida, pré-reflexiva, das emoções e da afetividade. Apoiado em uma lógica intuitiva, imaginativa, a partir de imagens e fortalecida pelo afeto, explicamos a realidade concreta, conferindo significado e ordem a um mundo aparentemente caótico e desorganizado.

Sendo narrativa pronunciada para ouvintes que a recebem como verdadeira, o mito traz a marca da fé e da confiança. Assim, a verdade do mito está relacionada à confiança na pessoa do narrador, à sua autoridade. Acredita-se que o poeta narrador seja um escolhido dos deuses, iluminado pelos deuses que lhe inspiraram sobre as origens dos acontecimentos passados e lhe passaram a responsabilidade de transmitir essa verdade para as gerações presentes e futuras. Sua palavra é sagrada, porque vem de uma revelação divina. Dessa forma, o mito se apresenta incontestável, inquestionável; marcado pela ausência da percepção de contradições.

Sob a forma de relatos fáceis de entender, os mitos são transmitidos de geração em geração, “por que assim os ancestrais o prescreveram”. Com isso, os mitos cumprem uma importante função social, ao reforçarem a coesão social, alimentando a identidade de grupo, identidade comunitária. Por isso, o cenário do mito é sempre a vida comunitária, que o alimenta. Enquanto o mito mantiver a força de identificação dos indivíduos e da comunidade, ele permanecerá muito vivo. E a força do mito consiste precisamente no fato de a narrativa se referir à própria história da comunidade, às suas origens. Essas narrativas míticas fazem parte da tradição cultural de um povo. Por isso, não são produto de um autor específico, de um indivíduo isolado que, em determinado momento, sentou-se e as escreveu.

Os mitos antigos ou primordiais exerciam uma função não só de explicar o mundo e as relações humanas, mas de transmitir um ideal de educação, essencial para a formação dos jovens. Por meio das narrativas míticas, as gerações mais velhas ensinavam às gerações mais novas como deveriam ser para se tornarem “excelentes”. Os heróis e deuses transmitiam modelos exemplares de conduta para serem seguidos. Esse modelo estava presente na areté (virtude) de cada herói.

Celito Meier

TEXTO 2 - MITO CONTEMPORANEO

Devido à estrutura mítica do ser humano, o mito é uma realidade também contemporânea, apesar de vivermos em uma era do “pós”, pós-industrial, pós-moderna, pós-cristão. O ser humano não é só razão, é também, em boa parcela, irracional, emotivo e passional. Assim, o mito faz parte do jeito humano de ser, de conhecer, de buscar e, portanto, sempre o acompanhará. Por isso, embora alguns possam considerar o mito como ilusão, mentira ou infância da humanidade, não devemos considerar o mito como uma infantilização, ou um saber menor e deturpado, uma vez que o ser humano é um complexo de dimensões constitutivas em relação.

O contexto pós-moderno no qual vivemos é conhecido como cultura da imagem, do consumo, da provisoriedade. Os meios de comunicação são instrumento, a partir dos quais se criam e se alimentam desejos, que acabam sendo transformados em necessidades. Não só isso, a linguagem visual explora anseios primordiais que carregamos em nosso inconsciente.

A atuação dos meios de comunicação de massa, na fugacidade das imagens e na rapidez das mudanças sociais e culturais, exalta múltiplos e fugazes personagens e os povoa em nosso imaginário de forma também transitória. Isso faz com que as características do mito contemporâneo sejam bem distintas do mito primitivo.

No mito contemporâneo, não encontramos a abrangência e a totalidade características da mitologia primitiva que buscava visões de ordenamento de toda a realidade. Contrariamente ao mito antigo, no qual a adesão era coletiva e seu conteúdo era conhecido por todos de forma transparente, assistimos, agora, a uma adesão individual a um conteúdo latente, situado nos bastidores do pensamento e que se faz presente em novelas, filmes, contos, sendo ele o motivo justificador de nossas ações para nós mesmos, diante dos outros.

Atualmente, os mitos se referem a campos particulares e fragmentados, sem necessária articulação entre eles, como por exemplo, a sensualidade, a maternidade, o esporte, a ciência. Você certamente já ouviu falar ou mesmo persegue a “eterna juventude” ou a beleza de determinada modelo ou atriz ou, ainda, a velocidade ou o caráter de determinado esportista idealizado e eternizado na memória

Uma vez presentes o afeto, a fé e a crença em uma totalidade, mesmo que restritos ao âmbito particular da matéria em questão, estamos diante de um mito. Dessa forma, por exemplo, a ciência pode se transformar em um mito, à medida que se acredita que ela seja neutra, imparcial, fonte de certeza e verdade absoluta.

Celito Meier

TEXTO 3 - FILOSOFIA: PERMANENTE BUSCA

PHILO + SOPHIA: Duas expressões gregas: Philo: amigo, amante, e Sophia: sabedoria. Philosophia é atitude e forma de saber relacionada à sabedoria. Filósofo é aquele que busca a sabedoria. Da mesma forma como o amado procura a amada, nunca a possuindo, a Filosofia busca a verdade, lutando contra toda forma de dogmatismo. E é bom lembrar que a sabedoria não é o que entendemos por inteligência abstrata, mas competência e habilidade que abrange tanto a compreensão profunda da realidade na qual se está inserido quanto a vivência coerente com esse saber esclarecido. Consequentemente, sabedoria tem direta relação com o saber viver. Assim, o philosopho é aquele que busca o bem viver, capaz de dar as razões de suas ações e decisões.
Partimos do princípio de que a reflexão filosófica é sempre uma reflexão a partir do seu tempo, critica e instituinte de um novo viver, na busca de uma sabedoria prática, iluminada pelo saber teórico. Por isso, pretendemos a formação de uma consciência filosófica compromissada com a ressignificação da própria existência, capaz de construir sentido, na interação com os outros sujeitos e parceiros, em diálogo investigativo.
Assim, considerando que a natureza da Filosofia é ser amante da sabedoria, mediante uma busca continuada de novas e aprofundadas leituras do mundo, a atitude filosófica que pretendemos formar traz a marca da criticidade e da radicalidade; ou seja, a percepção e o discernimento rigoroso dos pressupostos que subjazem às nossas afirmações cotidianas, bem como às suas possíveis decorrências.
Por isso, a Filosofia não pode consistir em apresentar verdades e elaborações definitivas, tampouco permanecer no terreno da imitação ou da informação; mas, despertar a consciência para a reflexão aprofundada sobre a existência humana, em suas complexas relações, buscando ressignificar a vida, com crescente autonomia e corresponsabilidade social.
A busca pela origem, pelos princípios primeiros é sempre uma motivação inquietante que nos anima e desinstala. Dessa forma, nosso propósito com a complexidade do ser, do conhecer e do fazer filosóficos é alimentar o olhar diferenciado, que capta articulações e constrói uma nova identidade pessoal, nos diferentes âmbitos da vida, especialmente nos âmbitos da condição humana, do conhecimento, do ético, do político e do estético.
Dessa forma, no espaço educativo, pretendemos colaborar com a formação de uma atitude metacognitiva, ou seja, atitude capaz de refletir sobre o próprio processo de aprendizagem, aprendendo a aprender, buscando construir relações e articulações, fazendo do erro um grande aliado da aprendizagem. Assim, a abertura ao novo e a constante releitura do real são marcas da atitude filosófica, que jamais aceita permanecer onde chegou, pois a consciência filosófica é instigante, perturbadora, desinstaladora, amante da sabedoria, que se traduz pela cotidiana busca por melhor viver. Dessa forma, o saber, ao se fazer auto implicativo, possibilita o novo, fomenta o fazer diferente e, fundamentalmente, possibilita ser e relacionar-se com qualidade diferenciada. Assim, a Filosofia se coloca na dinâmica da formação de uma nova postura ética e política, consciente e coerente, amadurecida pela reflexão crítica.

Celito Meier

TEXTO 4 - A FILOSOFIA NATURALISTA GREGA

Ao falarmos em Filosofia pré-socrática, estamos nos referindo aos filósofos da natureza, conhecidos como físicos (physis, natureza). Esses primeiros filósofos foram denominados por Aristóteles de physiólogos, o que vem a significar estudiosos da natureza. Dessa forma, o mundo natural (physis) passa a ser o objeto de estudo desses primeiros filósofos, que inauguram entre nós a ciência.
A mudança fundamental de olhar está agora no foco natural e não no sobrenatural. Busca-se as explicações e as causas dos fenômenos naturais, na própria realidade natural e não mais no horizonte mítico.

A maioria dos Pré-socráticos vem da Ásia Menor. Por essa razão, muitos historiadores acreditam nas influências que esses pensadores teriam tido das religiões e das filosofias orientais. Apesar de ser uma possibilidade, o grande consenso entre os pensadores atribui aos gregos a originalidade do pensamento filosófico. Enquanto as civilizações orientais permanecem muito ligadas à dimensão religiosa, com a temática da vida pós-morte e das vias de purificação da alma, a civilização grega consegue elaborar um pensamento que se afasta das explicações míticas e religiosas em direção às investigações científicas.

O primeiro período dessa Filosofia naturalista começa no século VI a.C., e termina dois séculos depois, nos fins do século V.; surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. A preocupação central dos filósofos deste período refere-se aos problemas cosmológicos, nos quais a tônica que unifica esse pensamento é estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito.

Para os pensadores pré-socráticos, o foco da busca era entender a origem de todas as coisas, a causalidade, a inteligibilidade, o princípio que está na origem de uma realidade. E explicar a origem de uma realidade é, para os primeiros filósofos, encontrar o nexo causal natural, é relacionar um efeito a uma causa natural que o antecede e o determina. E nessa busca deve haver uma causa natural primeira ou última.

Os Pré-socráticos estão preocupados em encontrar o princípio (o arché) de todas as coisas. A partir desse princípio, seria possível explicar tudo o que existe no Universo, pois, além de estar presente em todas as coisas, esse mesmo arché seria uma atividade, isto é, uma força dinâmica que, em conformidade com sua forma de ação, originaria a variedade de fenômenos naturais.

Nossos primeiros filósofos fizeram, simultaneamente, duas grandes mudanças em relação ao passado. Primeiramente, tentaram entender o mundo com o uso da razão, sem recorrer à revelação, à religião, ou ainda à autoridade e à tradição. E, em segundo lugar, estimulavam as pessoas à atitude de pensar, servindo-se de sua própria razão. Dessa forma, a Filosofia nasce como saber aberto e em construção intersubjetiva. Não se trata de um corpo acabado e sistematizado de conhecimentos a serem transmitidos. Ao contrário, o diálogo e a discussão, o debate e a argumentação são características fundamentais desse novo saber.


Celito Meier