Sociologia

1. O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS (1)

O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

O contexto histórico no interior do qual irá construir-se, formar-se e desenvolver-se a sociologia é o da emergente sociedade capitalista, na modernidade europeia. As profundas mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais exigiam novas explicações, solicitavam novos métodos investigativos capazes de fornecer uma perspectiva analítica do que estava acontecendo. Dessa forma, as teorias sociológicas e os conceitos que serão construídos trazem as marcas desse contexto e se tornam expressão do pensamento moderno.
O século XVIII é conhecido como “século das luzes”, do movimento iluminista, da confiança nos poderes da razão e das lutas em prol da liberdade de pensamento. Os representantes maiores desse movimento são os precursores da sociologia: John Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Rousseau (1712-1778), Immanuel Kant (1724-1804).
É importante perceber que o pensamento moderno abrange duas dimensões fundamentais: a busca do conhecimento e a crítica social. Para os filósofos iluministas, as instituições humanas tinham recebido uma configuração absolutamente injusta, irracional, que caminhavam na contramão dos direitos naturais do ser humano. Por exemplo, o modo como as relações humanas eram exercidas no mundo do trabalho, no reino da economia, na política e na religião estava fortemente marcado por injustiças sociais. Por isso, nascem as lutas históricas pela superação de determinadas formas de organização social.
É nesse contexto de um olhar mais profundo sobre a realidade social, de radicais críticas e de emergentes revoluções que se encontram as sementes das ciências sociais. O pensamento moderno assume uma nítida dimensão crítica e reivindicatória da realização dos direitos naturais do ser humano.
O sociólogo brasileiro Carlos Benedito de Campos Martins faz um retrato da vida social em movimento, a partir do qual nascerá a sociologia como o olhar que buscará compreender esse novo tecido social:
“Num período de oitenta anos, ou seja, entre 1780 e 1860, a Inglaterra havia mudado de forma marcante a sua fisionomia. País com pequenas cidades, com uma população rural dispersa, passou a comportar enormes cidades, nas quais se concentravam suas nascentes indústrias, que espalharam produtos para o mundo inteiro. Tais modificações não poderiam deixar de produzir novas realidades para os homens dessa época. A formação de uma sociedade que se industrializava e urbanizava em ritmo crescente implicava a reordenação da sociedade rural, a destruição da servidão, o desmantelamento da família patricial etc. A transformação da atividade artesanal em manufatureira e, por último, em atividade fabril, desencadeou uma maciça emigração do campo para a cidade, assim como engajou mulheres e crianças em jornadas de trabalho de pelo menos doze horas, sem férias e feriados, ganhando um salário de subsistência. Em alguns setores da indústria inglesa, mais da metade dos trabalhadores era constituída por mulheres e crianças, que ganhavam salários inferiores dos homens. A desaparição dos pequenos proprietários rurais, dos artesãos independentes, a imposição de prolongadas horas de trabalho etc. tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas habituais de vida. ... (MARTINS, C.B.C. O que é sociologia?. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.12)
(Segue ...)
Celito Meier

QUESTOES 1a 6

QUESTÃO 1. Natureza e Cultura
(Por Celito Meier)


Leia o fragmento a seguir:
No senso comum, costumamos ouvir expressões como: “gostaria de ser livre feito um pássaro” ou “feliz é a borboleta que voa para onde quer”. Contudo, o voo livre de uma borboleta ou de um pássaro é uma ilusão, uma vez que se encontram determinados pelo instinto de sobrevivência típico de sua espécie. Não há liberdade quando o instinto governa. A liberdade acontece à medida que reina a consciência, atributos exclusivamente humanos.

MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade.
Belo Horizonte: PAX Editora, 2010. P.55-56
No âmbito das ciências sociais, cultura é compreendida como o jeito de viver, o conjunto de costumes, tradições e valores que identifica e, portanto, diferencia os grupos sociais que se formam no distanciamento sem ruptura da vida natural. Dessa forma, a cultura se transforma em uma espécie de segunda natureza para os homens.

Considerando a relação natureza e cultura, os elementos constitutivos dessa relação estabelecem que

A) o mundo natural, por não apresentar leis, convenções e pactos é o reino da liberdade fundamental, vivida sem restrições.
B) o universo da cultura apresenta determinismos que impedem a realização da liberdade, uma vez que limitam os seres humanos ao meio sociocultural.
C) o mundo natural apresenta limites aos animais, que não existem para os seres humanos, por estes serem absolutamente livres.
D) a cultura é compreendida como o singular jeito humano de viver, que se constrói na ruptura com o reino animal.
E) o que distingue a cultura da natureza é o universo da liberdade e da consciência, atributos que fazem da cultura a segunda natureza dos homens.


QUESTÃO 2. Natureza e Cultura ( Fragmento de R. LARAIA)

(Por Celito Meier)

O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridos pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. (...)

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito antropológico. 24ªedição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 2009. P.45

A distinção e a relação entre natureza e cultura devem-se, essencialmente, ao fato de

(A) a cultura nascer devido a ação genial de alguns indivíduos dotados de capacidades naturais distintivas e superiores.
(B) a natureza animal ser o reino da liberdade e da espontaneidade e a cultura ser o espaço que inviabiliza as liberdades humanas.
(C) a natureza humana trazer inscrita a cultura como evolução natural, o que impossibilita a existência de indivíduos à margem da cultura.
(D) a cultura ser processo e resultado acumulativo de humanização do animal homem, possibilitando e expressando conquistas materiais e espirituais.
(E) a cultura, tanto quanto a herança genética, determinar o comportamento do homem, uma vez que os homens são simultaneamente natureza e cultura.


QUESTÃO 3. Natureza e Cultura
(Por Celito Meier)

No senso comum, costumamos ouvir expressões como: “gostaria de ser livre feito um pássaro” ou “feliz é a borboleta que voa para onde quer”. Contudo, o voo livre de uma borboleta ou de um pássaro é uma ilusão, uma vez que se encontram determinados pelo instinto de sobrevivência típico de sua espécie. Não há liberdade quando o instinto governa. A liberdade acontece à medida que reina a consciência, atributos exclusivamente humanos.

No âmbito das ciências sociais, cultura é compreendida como o jeito de viver, o conjunto de costumes, tradições e valores que identifica e, portanto, diferencia os grupos sociais que se formam no distanciamento, sem ruptura, da vida natural. Dessa forma, a cultura se transforma em uma espécie de segunda natureza para os homens.

Considerando a relação natureza e cultura, os elementos constitutivos dessa relação estabelecem que

(A) a cultura é compreendida como o jeito humano de viver, que se constrói na ruptura com o reino animal.
(B) a cultura é o universo da liberdade e da consciência, atributos que fazem da cultura a segunda natureza dos homens.
(C) o mundo natural, por não apresentar leis, convenções e pactos, é o reino da liberdade conquistada, vivida sem restrições.
(D) o mundo natural apresenta limites aos animais, que não existem para os seres humanos, por estes serem absolutamente livres.
(E) o universo da cultura apresenta determinismos que impedem a realização da liberdade, uma vez que limitam os seres humanos ao meio sociocultural.


QUESTÃO 04. FÉ E RAZÃO EM CONTEXTO MEDIEVAL
(Por Celito Meier)


Deus não pode infundir no homem opiniões ou uma fé que vão contra os dados do conhecimento adquirido pela razão natural. (...) Do exposto se infere: quaisquer que sejam os argumentos que se aleguem contra a fé cristã, não procedem retamente dos primeiros princípios inatos à natureza e conhecidos por si mesmos. Por conseguinte, não possuem valor demonstrativo, não passando de razões de probabilidade. E não é difícil refutá-los.

Tomás de Aquino. Contra os gentios. São Paulo: Abril Cultural, 1973 p. 70 ( Col. Os pensadores).

A partir desse trecho e de outras informações sobre a relação fé e razão, no pensamento de Tomás de Aquino, é correto afirmar que

A) a razão, afetada pela fragilidade da condição humana, deve aceitar as verdades da fé, mesmo que irracionais e contraditórias.
B) a inteligência e a vontade do homem são instâncias necessárias de suficientes para conferir livremente sentido à vida.
C) existe harmonia fundamental entre fé e razão, devendo a razão ser capaz de articular o conhecimento das realidades criadas, objeto da revelação divina, de forma argumentativa.
D) a fé se encontra subordinada à razão, que a potencializa para aproximar-se do Mistério, buscando sua compreensão.
E) a razão deve renunciar à tentativa de justificar as verdade da fé cristã, uma vez que estas procedem diretamente de Deus.


QUESTÃO 05. O MAL na concepção de S. AGOSTINHO)
(Por Celito Meier)


Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema __ de vós, ó Deus __ e tendendo para as coisas baixas: vontade que derrama as suas entranhas e se levanta com intumescência [vaidade, soberba] (...)
O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não tende só para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim, o fogo encaminha-se para cima e a pedra para baixo. Movem-se segundo seu peso. Dirigem-se para o lugar que lhes compete. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas quando o encontram, ordenam-se e repousam. O meu amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva.

Agostinho, As confissões. Livro VII,16 e VIII, 9. Trad. J. Oliveira Santos e Ambrósio Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os pensadores)


Em conformidade com o pensamento patrístico de Agostinho, presente nos fragmentos acima, sua concepção de mal afirma que

A. metafisicamente, o mal é um mistério dentro do qual o ser humano se move. Torna-se impossível aos homens afastarem-se desse âmbito
B. moralmente, o mal é uma criação da cultura, na qual os interesses individuais se sobrepõem às necessidades do corpo coletivo
C. fisicamente, o mal se identifica com a fragilidade e a morte, uma vez que os homens aspiram à vida eterna e a morte representa o fim desse ideal de vida
D. o mal consiste na falta, na desmedida, na inversão do amor, no apego às coisas terrenas, na perversão da vontade desviada de sua vocação primeira.
E. a realização da vocação humana acontece no exercício do livre-arbítrio, sendo o mal a renúncia ao exercício do livre arbítrio.


QUESTÃO 6. O RENASCIMENTO
(Por Celito Meier)


Esse o homem novo do Renascimento: aquele que se liberta da tradição pela dúvida e confirma seu valor através dos resultados de seus esforços; aquele que confia em suas experiências e em sua razão; o que confia no novo, pois assume sua realização dentro da temporalidade.
PESSANHA, José Américo Motta. Humanismo e pintura.
In: NOVAES, Adauto. Artepensamento. São Paulo: Companhia das Letras,1994. P. 34

Com o Renascimento renascem os estudos científicos e o interesse pela vida social. A partir do fragmento acima, o que melhor caracteriza o renascimento é

A. o ideal da vida contemplativa, uma vez que a libertação da tradição cristã e medieval remete o homem para o ócio e a criação artística.
B. o saber que parte da dúvida e estabelece verdade universais e dogmáticas, reforçando o principio da objetividade.
C. o retorno à tradição grega, que encontra no recurso à autoridade uma das estratégias e critérios de conhecimento seguro.
D. o resgate da experiência e a valorização da razão como critérios e guias no caminho do conhecimento verdadeiro.
E. o estudo sistemático sobre realidades essenciais e metafísicas, transcendendo as realidades temporais.

QUADRO DE RESPOSTAS
1- "E"
2- "D"
3 - "B"
4 - "C"
5 - "D"
6 - "D"

QUESTOES 7a 9

QUESTÃO 7. Antropologia renascentista
(Por Celito Meier)

Não obstante tudo isso [a criação do Universo, pelo Supremo Arquiteto e Pai], ao término do seu labor, desejava o Artífice que existisse alguém capaz de compreender o sentido de tão grande obra, que amasse sua beleza e contemplasse a sua grandiosidade. (...) Tomou então o homem, essa obra de tipo indefinido e, tendo-o colocado no centro do universo, falou-lhe nesses termos:
“A ti, ó Adão, não te temos dado, nem um lugar determinado, nem um aspecto próprio, nem qualquer prerrogativa só tua, para que obtenhas e conserves o lugar, o aspecto e as prerrogativas que desejares, segundo tua vontade e teus motivos. A natureza limitada dos outros está contida dentro das leis por nós prescritas. Mas tu determinarás a tua sem estar constrito por nenhuma barreira, conforme teu arbítrio, a cujo poder eu te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que, daí, tu percebesses tudo o que existe no mundo. Não te fiz celeste nem terreno, mortal nem imortal, para que, como livre e soberano artífice, tu mesmo te esculpisses e te plasmasses na forma que tivesses escolhido. Tu poderás degenerar nas coisas inferiores, que são brutas, e poderás, segundo o teu querer, regenerar-te nas coisas superiores, que são divinas”. (...)

(MIRANDOLA , Pico Della. A dignidade humana. Trad. Luis Feracine. São Paulo: Ed. Escala. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, nº 26. pp. 39-42)

Com base nesse trecho renascentista, que resgata o humanismo, é possível afirmar que

A. a ciência divina, que tudo criou, estabeleceu para o ser humano um destino que ele deverá realizar, conciliando liberdade e obediência.
B. a dignidade humana, que difere o ser humano dos demais animais, está na liberdade da automodelação e autodestinação.
C. a finitude ou a realidade limitada e mortal do ser humano é uma dimensão essencial, presente desde a criação do ser humano por Deus.
D. a graça divina, que acompanha o ser humano, impede a queda humana na degradação e degeneração.
E. o homem foi criado por Deus para a imortalidade. Mas, devido ao pecado, tornou-se mortal, como castigo pela sua transgressão.


QUESTÃO 8. Natureza humana no Pensamento de Th. HOBBES
(Por Celito Meier)

Portanto, tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há espaço para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente, não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta. (...) Desta guerra de todos os homens contra todos os homens também isto é consequência: que nada pode ser injusto. A noção de bem e mal, de justiça ou de injustiça, não podem aí ter lugar. Onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei não há injustiça. [...] É esta pois a miserável condição em que o homem realmente se encontra por obra da simples natureza.

(Hobbes, O Leviatã. Capítulo XIII. Dos direitos dos soberanos por instituição. Trad. João Paulo M. e Maria Beatriz N.S . São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os pensadores).

A partir desse fragmento, a noção de estado de natureza, presente no pensamento de Thomas Hobbes, expressa a ideia de que

A. a desconfiança que os homens alimentam uns dos outros, impossibilitando toda forma de comércio, tem sua origem nas primeiras guerras civis.
B. a violência passa a existir a partir do momento em que os homens rompem o pacto livremente construído.
C. nenhuma ação humana, no estado natural, poderá ser definida como justa ou injusta, uma vez que nessa esfera inexiste a lei.
D. o individualismo dos homens não é natural, mas é atitude e espirito decorrentes da histórica competição entre os homens
E. o individualismo moderno, ao alimentar o espírito de competição, inibe a sociabilidade humana natural.


QUESTÃO 9. Conceito de Soberania em. ROUSSEAU
(Por Celito Meier)


A primeira e a mais importante consequência decorrente dos princípios até aqui estabelecidos é que só a vontade geral pode dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade de sua instituição, que é o bem comum, porque, se a oposição dos interesses particulares tornou necessário o estabelecimento das sociedades, foi o acordo desses mesmos interesses que o possibilitou. O que existe de comum nesses vários interesses forma o liame social e, se não houvesse um ponto em que todos os interesses concordassem, nenhuma sociedade poderia existir. Ora, somente com base nesse interesse comum é que a sociedade pode ser governada. Afirmo, pois, que a soberania, não sendo senão o exercício da vontade geral, jamais pode alienar-se e que o soberano, que nada é, senão um ser coletivo, só pode ser representado por si mesmo. O poder pode transmitir-se; não porém, a vontade. (...)
A soberania é indivisível pela mesma razão que é inalienável, pois a vontade ou é geral, ou não o é, ou é a do corpo do povo, ou somente de uma parte. (...) Há comumente muita diferença entre a vontade de todos e a vontade geral. Esta se prende somente ao interesse comum; a outra, ao interesse privado e não passa da soma das vontades particulares.

ROUSSEAU, J. Jacques, Do contrato social. Livro segundo.Trad. Lourdes Santos Machado. 5ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. P. 43-47.

A partir desse fragmento, em conformidade com Rousseau, o que caracteriza a noção de soberania é a ideia de que

A. a soberania indivisível e indestrutível exige dos súditos absoluta obediência às orientações do governante, que foi eleito para a defesa do bem comum.
B. o governo, seja ele democrático ou aristocrático, torna-se poder soberano, se for legitimamente instituído, atendendo a vontade de todos.
C. a soberania pertence à vontade de maioria, pois esse é o critério da verdadeira democracia.
D. a soberania deve ser transferida aos governantes, uma vez que o individualismo dos cidadãos caminha na contramão da vontade geral.
E. o contrato social proporciona ao corpo político poder absoluto, vontade soberana, que requer do governante a subordinação à vontade geral.


QUADRO DE RESPOSTAS

7 - "B"
8- "C"
9- E"



questoes temáticas 1 a 5

1. AÇÕES AFIRMATIVAS
(Por Celito Meier)

Em 1996, a Presidência da República criou o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) sobre a População Negra. Desse grupo nasceu a primeira definição do que sejam ações afirmativas.

Veja a definição:

Ações afirmativas são medidas especiais e temporárias, tomadas pelo Estado e/ou pela iniciativa privada, espontânea ou compulsoriamente, com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidade e tratamento, bem como compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, por motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros.

GTI/População Negra. Brasília:
Ministério da Justiça/Secretaria de Direitos Humanos, 1996. p. 10.

Considerando o conceito apresentado, sobre as ações afirmativas afirma-se que elas são


A) estratégias de ação governamental que buscam eliminar as diferenças, em nome do princípio da igualdade fundamental.
B) estratégias de ação política por meio das quais o Estado pretende fortalecer a consciência das vítimas para a necessidade da luta por emancipação.
C) expressões da justiça como equidade, uma vez que o Estado vem em auxílio das minorias que são naturalmente mais fracas e impotentes.
D) medidas históricas especiais e temporárias, no intuito de eliminar ou minimizar as injustas desigualdades culturalmente construídas.
E) medidas necessárias, que integram essencialmente o sistema democrático, pois nele as diferenças sociais tendem a aumentar.

2. AÇÃO SOCIAL ( Weber)
(Por Celito Meier)

Weber é frequentemente apontado como o mais antigo defensor das perspectivas de ação social. Ainda que reconhecesse a existência das estruturas sociais __ como classes, partidos, grupos de status e outros __ , ele sustentava quer essas estruturas foram criadas através de ações sociais dos indivíduos.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4ª ed. Trad. Sandra Regina Netz. Porto Alegre, Artmed, 2005. p. 35
Considerando o conceito de ação social, na perspectiva de Max Weber, infere-se que:
A. as ações individuais são socialmente motivadas, comprometendo o campo da liberdade e da autonomia do sujeito.
B. as ações sociais são ações cujo foco concentra-se nas motivações do sujeito, de onde decorrem os sentidos da ação.
C. o indivíduo é fruto do meio, razão pela qual a consciência coletiva determina a ação individual.
D. as motivações do agir humano são coletivamente elaboradas, expressões do senso comum
E. existe uma oposição entre indivíduo e sociedade, de modo que as motivações, as ações individuais não sofrem a influência da tradição.


3. Autoridade e dominação (Max WEBER)
(Por Celito Meier)


Existem, em princípio, três razões internas que justificam a dominação, existindo, consequentemente, três fundamentos da legitimidade. Antes de tudo, a autoridade do “passado eterno”, isto é, dos costumes santificados pela validez imemorial e pelo hábito, enraizado nos homens, de respeitá-los. Tal é o “poder tradicional”, que o patriarca ou senhor das terras, outrora, exercia. Existe, em segundo lugar, a autoridade que se funda em dons pessoais e extraordinários de um indivíduo (carisma) ___ devoção e confiança estritamente pessoais depositadas em alguém que se singulariza por qualidades prodigiosas, por heroísmo ou por outras qualidades exemplares que dele fazem o chefe. [...].
Existe, por fim, a autoridade que se impõe em razão da “legalidade”, em razão da crença na validez de um estatuto legal e de uma “competência” positiva, fundada em regras racionalmente estabelecidas ou, em outros termos, autoridade fundada na obediência, que reconhece obrigações conformes ao estatuto estabelecido. Tal é o poder, como o exerce o “servidor do Estado” em nossos dias e como o exercem todos os detentores do poder que dele se aproximam sob esse aspecto.

WEBER, Max. “A política como vocação”. In: Ciência e Política. Duas vocações. Trad. Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mora. São Paulo: Cultrix, 2000, p.57-58

Com base nesse fragmento, existe uma profunda relação entre autoridade, domínio e obediência. Dessa relação infere-se que

A) a dominação degenera a legítima relação entre os seres humanos, transformando-a em imposição unilateral e em obediência obrigatória.
B) a obediência à autoridade torna-se possível somente devido ao processo educacional, mediante o qual existe a dominação da impulsividade humana.
C) a dominação que existe nas relações humanas é sempre legítima, uma vez que sua existência implica liberdade de adesão à ação sofrida.
D) a dominação política deve caminhar com a legitimidade, uma vez que é condição fundamental para a existência das comunidades, construídas sobre tradições, crenças e leis.
E) o exercício do poder na vida política é a realização do natural desejo humano de governar influenciar e impor suas vontades sobre a vida de outras pessoas.

4. Condição humana(BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas)
(Por Celito Meier)


[Na construção social da realidade] a animalidade do homem transforma-se em sociabilidade, mas não é abolida. [...] A coexistência permanente da animalidade do homem e de sua sociabilidade pode ser proveitosamente observada em qualquer de conversa depois do jantar. É possível falar de uma dialética entre a natureza e a sociedade. Essa dialética é dada na condição humana e manifesta-se renovada em cada indivíduo humano. Para o indivíduo, evidentemente, ela se desenrola em uma situação sócio-histórica já estruturada. [...].
O homem é biologicamente predestinado a construir e habitar um mundo com os outros. Este mundo torna-se para ele a realidade dominante e definitiva. Seus limites são estabelecidos pela natureza, mas, uma vez construído, este mundo atua de retorno sobre a natureza. Na dialética entre a natureza e o mundo socialmente construído, o organismo humano se transforma. Nesta mesma dialética, o homem produz a realidade e com isso de produz a si mesmo.

BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 34ª ed. trad. Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 229-233.

A partir desse fragmento, no que tange ao tema da natureza humana ou da condição humana, infere-se que

A. a construção social da realidade é exigência da dimensão cultural do ser humano, na qual se busca a superação da animalidade humana.
B. a dicotomia entre natureza e cultura é insuperável, fato que alimentará o juízo cultural depreciativo em relação ao mundo natural.
C. a natureza humana apresenta uma dimensão individualista, com base em qual o corpo social deve ser estruturado para atender as demandas individuais.
D. a estrutura do animal humano traz o selo da sociabilidade, que resulta na dimensão conflitiva e dinâmica da construção social da realidade.
E. a emergência da sociabilidade humana torna-se possível mediante profundo e articulado processo educacional sobre a impulsividade natural.

5. Cultura (Roque de Barros LARAIA)
(Por Celito Meier)

No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture, que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização, além de marcar fortemente o aprendizado da cultura em oposição à ideia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos. (...)
O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. (...)

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito antropológico. 24ªedição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed,2009. P.25.45

A distinção e a relação entre natureza e cultura deve-se essencialmente ao fato de

A) a cultura, tanto quanto a herança genética, determinar o comportamento do homem, uma vez que os homens são simultaneamente natureza e cultura.
B) a cultura ser processo e resultado acumulativo de humanização do animal homem, possibilitando e expressando conquistas materiais e espirituais.
C) a evolução e a cultura nos homens acontecerem naturalmente, uma vez que está inscrito em todo ser humano o necessário aparecimento da cultura.
D) a cultura nascer devido a ação genial certos de indivíduos dotados de capacidades naturais distintivas e superiores.
E) a natureza ser o reino da liberdade e a cultura o espaço das restrições à liberdade.

QUADRO DE RESPOSTAS

1. Ações afirmativas ( alternativa “D”)
2. Ação Social ( Weber): ( alternativa “B”)
3. Autoridade e dominação (Max WEBER) (Alternativa “D”)
4. Condição humana(BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas) (Alternativa “D”)
5. Cultura (Roque de Barros LARAIA) (Alternativa “B”)

questoes temáticas 6 a 10

6. Educação (Émile DURKHEIM)
(Por Celito Meier)

A educação é ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social: tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine. [...]. A sociedade se encontra, a cada nova geração, como que diante de uma tabula rasa, sobre a qual é preciso construir quase tudo de novo. É preciso que, pelos meios mais rápidos, ela agregue ao ser egoísta e associal, que acaba de nascer, uma natureza capaz de vida moral e social. Eis aí a obra da educação. Ela cria no homem um ser novo.
DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. São Paulo, Melhoramentos, 1978, p.41-42
Nesse fragmento, Durkheim reflete sobre a natureza e a função da educação na vida e sociedade. Dessa reflexão, infere-se que a natureza humana

A) apresenta uma fragilidade estrutural. Por isso, a educação tem por função construir as ferramentas que protejam o ser humana das agressões.
B) apresenta uma dimensão moral e social que deve ser cultivada por meio da educação, na direção de uma cultura humanizada.
C) é antissocial e não apresenta potencialidades para a vida comum. Por essa razão, a violência social é um fenômeno social tão comum.
D) é individualista e despreparada para a vida e sociedade. Por essa razão, a educação tem por função moldar o indivíduo para as exigências da vida em sociedade.
E) é uma tabula rasa sempre necessitada de recomeçar sua formação em cada nova geração, pois as educação não tem êxito na humanização do ser humano.

7. ÉTICA DA CONVICÇÃO E DA RESPONSABILIDADE Max WEBER)
(Por Celito Meier)


Toda a atividade orientada segunda a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção. Isso não quer dizer que a ética da convicção equivalha a ausência de responsabilidade e a ética da responsabilidade, a ausência de convicção. Não se trata disso, evidentemente. Não obstante, há oposição profunda entre a atitude de quem se conforma às máximas da ética da convicção ___ diríamos em linguagem religiosa, “o cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus” ___ e a atitude de quem se orienta pela ética da responsabilidade, que diz: “Devemos responder pelas previsíveis consequências de nossos atos”. [...]. Vemos, assim, que a ética da convicção e a ética da responsabilidade não se contrapõem, mas se completam e, em conjunto, formam o homem autêntico, isto é, um homem que pode aspirar à “vocação política”.

WEBER, Max. “A política como vocação”. In: Ciência e Política. Duas vocações. Trad. Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mora. São Paulo: Cultrix, 2000, p.110-122.



Com base na leitura desse trecho, no confronto entre as éticas da convicção e da responsabilidade, infere-se que

A) a ética da convicção, em si mesma, apresenta uma dimensão abstrata e metafísica, e pode, inclusive, alimentar atitudes fundamentalistas e fanáticas.
B) a ética da responsabilidade é incompatível com a ética da convicção, pois uma refere-se à dimensão subjetiva e outra à dimensão objetiva.
C) o homem público, inserido na espera política, deve sempre agir motivado pela ética da convicção, pois os conflitos são a mola da vida social.
D) a autenticidade de vida se constrói sobre a ética da convicção, pois nela aparece a dimensão da consciência, que é decisiva para a formação da identidade humana.
E) a ética da responsabilidade é insuficiente para julgar as ações políticas dos representantes legitimamente eleitos.

8. Estado (Max WEBER)
(Por Celito Meier)

Sociologicamente, o Estado não se deixa definir a não ser pelo específico meio que lhe é peculiar, tal como é peculiar, a todo outro agrupamento político, ou seja, o uso da coação física. [...]. Em todos os tempos, os agrupamentos políticos mais diversos ___ a começar pela família ___ recorreram à violência física, tendo-a como instrumento normal de poder. Em nossa época, entretanto, devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território ___ a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado ___ reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física. [...]. O Estado se transforma, portanto, na única fonte do “direito” à violência.

WEBER, Max. “A política como vocação”. In: Ciência e Política. Duas vocações. Trad. Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mora. São Paulo: Cultrix, 2000, p.56.


A partir desse fragmento, a alternativa que melhor expressa a concepção weberiana de Estado afirma que

A. o uso da repressão, por meio da força policial, é violência ilegítima, pois mostra o fracasso do Estado no exercício de suas funções.
B. o recurso à violência física, nas formas históricas de associação, foi concebido como barbárie, mal a ser superado.
C. o Estado contemporâneo é a única organização que reivindica para si o monopólio do uso legítimo da violência física.
D. o uso da violência é inerente à natureza humana, marcada pela impulsividade natural, que denuncia o fracasso das tentativas de socialização bem sucedida.
E. o uso da violência destrói toda forma de poder, pois dispersa e dilui a comunidade, que é a verdadeira fonte do poder.

9. ESTRUTURALISMO E CONSTRUTIVISMO (Pierre BOURDIEU)
(Por Celito Meier)

“Se eu tivesse que caracterizar meu trabalho em duas palavras, isto é, como se faz muito hoje em dia, se eu precisasse encontrar um rótulo para ele, eu falaria de constructivist structuralism ou de structuralist construtivismo [...]. Por estruturalismo ou estruturalista, quero dizer que existem, no próprio mundo social, e não apenas nos sistemas simbólicos, na linguagem, no mito etc., estruturas objetivas, independentes da consciência e da vontade dos agentes, que são capazes de orientar ou de coagir suas práticas ou suas representações. Por construtivismo, quero dizer que há uma gênese social, de uma parte, dos esquemas de percepção, de pensamento e de ação que são constitutivos do que eu chamo o habitus e, de outra parte, estruturas sociais, em particular do eu chamo de campos e grupos, notadamente daquilo que se nomeia comumente classes sociais”.

BOURDIEU, Choses dites, p.149. Apud: FERRÉOL, Gilles; NORECK, Jean-Pierre. Introdução à Sociologia. Trad. Ana Montóia. São Paulo: Ática, 2007. P.61.

A partir da leitura desse fragmento e em outras informações sobre o pensamento de Bourdieu, a construção social da realidade é

A) decorrência das lutas ideológicas travadas nas instancias políticas, por meio das quais os valores da classe social hegemônica se propagam para o corpo social.
B) efeito das livres interações humanas; portanto, sempre instável e imprevisível, sendo a sociedade essencialmente histórica e dinâmica.
C) fruto das tradições que antecedem o momento histórico, cabendo à geração presente a assimilação dos valores dessa tradição.
D) motivada pelo pela utopia, pelas idealizações das novas gerações que não aceitam permanecer no cultivo da memória dos antepassados.
E) resultado de uma combinação de dois elementos essenciais, o estrutural e o subjetivo, o dos grupos ou classes sociais e o do habitus ou dos esquemas de percepção do sujeito.

10. FATO SOCIAL (Émile DURKHEIM)
(Por Celito Meier)

“O fato social consiste em maneiras de agir, pensar e sentir, exteriores ao indivíduo e dotados de um poder coercitivo do qual se lhe impõem. (...) É um fato social toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coação exterior; ou ainda, que é geral no conjunto de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais”.
(DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. São Paulo, Editora Martins Fontes. 2007, p. 2.)
A partir dessa reflexão de Émile Durkheim, infere-se que o fato social

A) é o objeto de estudo dos sociólogos, que sobre ele lançam seu olhar, sempre marcado pela subjetividade e por seus pressupostos ideológicos.
B) é uma construção normal do senso comum, um resultado das livres e imprevisíveis interações humanas.
C) é uma realidade social anterior ao indivíduo, contudo, sem poder coercitivo sobre sua prática cotidiana.
D) poderá não ser considerado pela subjetividade do olhar humano, que portanto deixa de existir para indivíduos determinados.
E) refere-se à realidade social que é independente, anterior e maior do que sujeito que a vivencia e sobre ele exerce forte pressão.


QUADRO DE RESPOSTAS

6. Educação ( DURKHEIM) (Alternativa “D”)
7. Etica da Convicção e ética da Responsabilidade ( Alternativa “A”)
8. Estado (Max Weber) ( Alternativa “C”)
9. Estruturalismo e Construtivismo ( Pierro BOURDIEU). Alternativa “E”)
10. Fato social (DURKHEIM) (alternativa “E”)

1. O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS (2)

O nascimento e o rápido crescimento do setor industrial inglês provocou o êxodo rural e, com ele, rapidamente se formam as diferentes classes sociais. Falar em modernidade é falar em revolução. Essa revolução, que se inicia na forma de pensar, manifesta-se em muitos campos. A passagem do pensamento da matriz religiosa para a matriz laica e ou secular pode ser verificada em praticamente todos os campos
Na modernidade, as justificativas da ação humana e da norma moral se fundamentam não mais em explicações religiosas, mas na lei natural, no interesse e na razão humana. Essa consciência da responsabilidade humana, vinculada à liberdade e à dignidade humana, está na base das grandes revoluções modernas: Revolução Americana de 1776, Revolução Industrial e Revolução Francesa.
Em decorrência do amadurecimento dessa consciência a respeito da igualdade de direito de todos os homens, que contrastava com a prática do poder centralizador e da manutenção dos excessivos privilégios à nobreza e ao clero, nasce a luta pelos ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Em 14 de julho de 1789, o movimento revolucionário conquistou Bastilha, que era o símbolo do poder vinculado aos nobres e aos monarcas absolutos. A partir dessa conquista, nasce a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento que proclama a igualdade entre todos, derrubando os argumentos que sustentaram séculos de imobilidade social, a sociedade estamental, de castas e privilégios.
A derrubada desse Antigo Regime colaborou para a formação e o fortalecimento de uma nova consciência, a consciência da historicidade, da dinamicidade da vida que, agora, não mais se encontra vinculada à vontade divina, mas se encontra nas mãos dos homens, construtores de seu próprio destino. Nesse novo contexto, a tônica é a mudança. Mudam os modos de produção e o trabalho humano passa a estar estreitamente ligado às maquinas e inovações tecnológicas.
O processo de urbanização, que acontece com a industrialização, evidencia a complexidade da vida humana em sociedade, objeto de estudo das ciências sociais. O surgimento histórico das ciências sociais, especialmente da sociologia e da antropologia, tem como seus objetos de estudo, respectivamente, a sociedade europeia e o estudo dos povos colonizados. O nascimento da antropologia está vinculado ao estudo das identidades dos diferentes povos colonizados, seja na África, na Ásia ou na América. Dessa forma, antropologia é uma espécie de ciência da alteridade, ou seja, reflexão sobre o outro, o diferente.
Não é difícil imaginar a reação dos viajantes europeus ao se depararem com povos bem distintos, tanto física quanto culturalmente. A antropologia cultural nasce com esse olhar sobre as culturas não europeias, buscando compreender seu modo de vida, sua organização, suas concepções. Dessa forma, ela colabora para compreender a natureza sistêmica da vida social, superando o inicial olhar de tendência evolucionista, no qual predominada a concepção etnocêntrica, na qual o colonizador concebe sua própria cultura como mais evoluída em relação às culturas indígenas, por exemplo, vistas como primitivas ou atrasadas.

Celito Meier

2 - O OBJETO DA SOCIOLOGIA: O FATO SOCIAL

Você já sentiu muitas vezes a pressão que o meio social exerce sobre sua vida? Percebe que suas ações são socialmente condicionadas? Quando vai tomar uma decisão ou realizar uma ação, você consegue reconhecer que essa decisão leva em consideração o olhar dos outros, a aprovação ou a censura pública?
A sociologia busca analisar os condicionantes sociais que influenciam nas decisões individuais. Assim, a aprendizagem da sociologia vem acompanhada da formação de competências e habilidades relacionadas ao aprender a pensar o indivíduo sempre inserido num todo maior, exterior e anterior ao ele mesmo.
A reflexão sobre o olhar sociológico nos leva à consideração do fato social, estabelecido, por Émile Durkheim, como o objeto de estudo da sociologia. Em sua obra As regras do método sociológico (1895), estabelece que o objeto da sociologia são os fatos sociais. “Fato social é toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais (DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.13)
A partir desse fragmento, vemos que o conceito de fato social se refere à realidade social que é independente e anterior ao sujeito que a vivencia. Assim, em primeiro lugar, os fatos sociais são marcados pela exterioridade e pela objetividade; ou seja, existem e atuam sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua livre e consciente adesão. Ora, cada indivíduo nasce e é recebido e educado numa tradição já existente. Em decorrência disso, uma segunda dimensão se impõe: o fato social traz sua identidade vinculada à coerção social. Em outros termos, as normas, as regras, os costumes sociais exercem força e pressão prévias sobre o indivíduo.
O meio sociocultural exerce pressão ou força coercitiva que o indivíduo leva em consideração em suas decisões. Existem olhares de reprovação, que têm a força de moldar nosso comportamento em conformidade com o que é socialmente esperado. Além desse aspecto não formal ou “espontâneo”, existe a sanção “legal”, da lei que prescreve ou proíbe certos comportamentos como, por exemplo, o pagamento dos impostos, a multa de trânsito ou a proibição do roubo ou furto. Com base nessa objetividade e coerção, a terceira característica do fato social é a generalidade, ou seja, sua natureza coletiva. O fato social repete-se na coletividade dos indivíduos. O fato social, que tem força coercitiva, é exterior ao indivíduo e vale para a coletividade, está presente, por exemplo, nas roupas que as pessoas usam em determinados momentos da vida social.
Vinculada à noção de generalidade que caracteriza o fato social, no qual se percebem formas padronizadas de pensamento e comportamento, Durkheim aborda a noção de consciência coletiva. Entendida como conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma comunidade, a consciência coletiva forma a moral vigente na sociedade, em conformidade com a qual atitudes serão interpretadas como morais ou imorais, louváveis ou reprováveis. Em suma, os indivíduos sentem a pressão do meio e suas ações são socialmente condicionadas.

Celito Meier

3 - A AÇÃO SOCIAL

A AÇÃO SOCIAL NA SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER

Quando o indivíduo decide fazer algo ou quando realiza uma ação, que motivação está na base de sua conduta? Será que o motivo da ação foi a tradição? O afeto? O valor? O objetivo ou a finalidade da ação? Todos esses motivos podem estar presentes ao mesmo tempo? Ou a presença de um exclui a presença de outro motivo?
Diferentemente da abordagem de Durkheim, que se concentra no fato social, que é geral, externo e coletivo, com força coercitiva, a reflexão de Max Weber (1864-1920) se concentra na ação social do indivíduo, na forma como assimila, interpreta e reage diante dos elementos da cultura. No centro das buscas sociológicas de Max Weber, encontramos a noção de compreensão, vinculada à ideia de interpretação do sentido da atividade social e das relações sociais do ser humano.
Weber parte do pressuposto de que o ser humano é movido pelo sentido que atribui às coisas e às relações; ou seja, toda ação humana recebe um sentido que orienta o ser humano em suas práticas cotidianas. Ação social é toda ação motivada do indivíduo, influenciada socialmente. Trata-se de uma ação que acontece inserida em um contexto sociocultural, que recebe um sentido ou uma motivação do sujeito
AS MOTIVAÇÕES DO AGIR HUMANO
Inicialmente, inseridos na cultura, os seres humanos costumam agir pela força da tradição, do hábito ou do costume social. Nessa dimensão, estamos diante de uma conduta muitas vezes irrefletida, pouco ou nada racional. Isso dificulta a própria compreensão dessa conduta humana. Analisando algumas manifestações do Folclore Brasileiro como por exemplo o Bumba-meu Boi (Maranhão) ou Boi-de-Mamão (Santa Catarina) ou Boi-Santo (Ceará), O maracatu (Recife), a Folia de Reis, a Festa do Divino etc, podemos reconhecer a força da tradição como motivação das ações individuais
Em segundo lugar, a atividade humana é também passível de ser movida pelo afeto, pela dimensão emotiva, impulsiva. Nesse horizonte, inserem-se as ações movidas pelas paixões do ódio ou da vingança.
Outra forma de ação humana é aquela atividade racional movida pelo valor. Nesse terreno, encontramo-nos na ética da convicção, pois o sujeito é movido por uma causa, seja ela religiosa, politica, artística ou científica. Nessa esfera, há muita paixão envolvida, o que acarreta também na presença de irracionalidades. Aqui, o olhar traz uma coerência interna, portador de convicções, não necessariamente conectado a uma consciência das decorrências de suas ações.
A forma racional de atividade, guiada pela finalidade, insere-se no horizonte da ética da responsabilidade, na qual o olhar considera as consequências possíveis da ação. Aqui se estabelece a relação entre fins e meios. Busca-se os melhores meios para chegar à meta estabelecida. Nessa escolha dos fins, costuma também estar presente a ação guiada por valor. Nesse caso, o indivíduo estabelece prioridades e, assim, atribui maior valor a um meio específico em detrimento de outros.
Portanto, no centro do olhar compreensivo da sociologia encontra-se o indivíduo situado culturalmente, em sua atividade orientada e motivada. Nessa dinâmica, o método sociológico deverá buscar o sentido que os indivíduos atribuem às suas condutas e ações com os outros em sociedade.

Celito Meier

4 - DA NATUREZA À CULTURA

Pensando na construção conceitual, a palavra cultura deriva do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, cuidar. Assim, da forma de cultivar e de cuidar nascem certos hábitos e comportamentos singulares, produtos e objetos são fabricados. Por isso, cultura é tudo o que foi cultivado e criado pelo fazer humano, tanto em sua dimensão material, de objeto criado, quanto em sua dimensão psíquica ou espiritual, das ideias, dos valores, das crenças.
Por isso, originariamente, a cultura nasce da intervenção humana sobre o mundo natural. A primeira experiência de fazer fogo, o primeiro pedaço de pau que serviu como arma para a defesa contra uma agressão, os primeiros sinais usados para estabelecer comunicação etc. são expressões do processo de humanização, processo de construção de cultura.
Esse processo de intervenção sobre o dado natural, de transformação e de criação recebe o nome de cultura. E como acontece esse processo de transformação que cria a cultura? São muitas as formas de mediação, são muitas as linguagens. Merece destaque inicial o trabalho. Através das múltiplas formas de trabalho, o ser humano cria cultura, adaptando a natureza a seus projetos, a suas necessidades e a seus desejos. Esse é um elemento altamente distintivo do comportamento humano em relação aos demais animais, que não apresentam a inteligência abstrata, que não manifestam capacidades de distanciamento do mundo natural, que permanecem marcados pela natural integração ou adaptação ao meio.
A inteligência humana traz a marca da abstração, da capacidade de construir instrumentos, a partir de um projeto mental. Essa capacidade inerente aos humanos de construir símbolos e de estabelecer comunicação simbólica possibilita acúmulo e transmissão de experiências entre as diferentes gerações. Esse processo de transformação do mundo natural, por meio de diferentes linguagens, é que denominamos cultura. Entre essas linguagens destacamos a palavra articulada na fala, o trabalho transformador da natureza, a arte como instrumento de comunicação etc.
Portanto, a cultura é o âmbito da construção do sentido através dos símbolos da imaginação, através dos quais o ser humano busca dar forma aos desejos de seu espírito. Se a natureza é a casa do mundo animal, a cultura é a moradia do universo humano, sempre em construção. Dessa forma, uma das marcas mais distintivas do mundo natural para a existência humana encontra-se na abertura que o universo cultural apresenta ante à delimitação e programação genética presentes no reino animal. Dessa abertura potencial existente no ser humano, criador de cultura, emergem múltiplas possibilidades, que podem caminhar em direções opostas. Destacamos, por um lado a sociabilidade humana e, por outro lado, o individualismo e a impulsividade agressiva.
Nas reflexões filosóficas, sociológicas, antropológicas e políticas sobre a relação indivíduo e comunidade, afirma-se que os homens perceberam, desde as suas primeiras organizações em sociedade, que a vivência em grupo era também muito instável, devido à impulsividade e agressividade que caracterizam o ser humano. Por essa razão, nasce a consciência da necessidade de estabelecer leis e normas, para assegurar a vida de todos. Essa será uma das dimensões fundamentais da vida cultural.

Celito Meier

5. OS METODOS DE TRABALHO DAS CIENCIAS SOCIAIS

Com a presença da sociologia em sala de aula, temos um novo desafio, que é também uma nova oportunidade: aprender a fazer ciência social. As ciências sociais têm metodologias que precisamos aprender. Não se trata de concentrar o nosso olhar e nossa atitude em críticas sociais ou em projetos de transformação social, por mais importantes que essas dimensões sejam. O que precisamos aprender é fazer análise, interpretar dados, estudar e compreender determinados problemas, temas e conceitos, ver como eles nascem, por quais razões ocorrem, como estão estruturados, que decorrências podem gerar etc.
Falar em ciência, a partir da modernidade, é referir-se à articulação entre quadro teórico e o campo da observação empírica, em busca de uma explicação lógica, racional, coerente do conjunto de dados empíricos selecionados.

As ciências sociais necessitam, portanto, de um método para fazer aparecer aquilo que é não evidente, para explicitar as relações implícitas. Dessa forma, há um rigor presente no método que o afasta do olhar mecânico e irrefletido do senso comum. Por isso, o primeiro passo do método de trabalho do cientista social é a atitude do olhar que toma distancia para ver com novos olhos a realidade, buscando perceber as tendências que estão se formando na vida social. Dessa forma, transcendendo a intuição sensível, a atitude do cientista social vem marcada por profunda habilidade analítica.
Leia a afirmativa a seguir, de Durkheim:

“É preciso considerar os fenomenos sociais em si mesmos, separados dos sujeitos conscientes que os concebem; é preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores, pois é nessa qualidade que eles se apresentam a nós. [...] Essa regra aplica-se portanto à realidade social inteira, sem que haja motivos para qualquer exceção”
(DURKHEIM, É. As Regras do Metodo Sociológico. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins fontes, 2007. p. 28-29 )

Normalmente, falar em método é falar em objetividade de análise, em conjunto de procedimentos a serem seguidos na investigação sobre a verdade de uma realidade. Não cabe improvisação. Faz-se necessário o rigor de um método que possibilite, com base na percepção de regularidades, a previsão ou a afirmação de tendências presentes no fenômeno estudado.
Não pertence à essência da sociologia fazer críticas sociais e pretender ser um reformador da sociedade. A natureza dessa ciência está na análise das relações sociais, na análise das relações que existem entre a estrutura social e o comportamento dos indivíduos.
De modo específico, existem métodos quantitativos e qualitativos. Um sociólogo que trabalha com um questionário, para recolher informações, está usando o método quantitativo. Esse método possibilita as generalizações. Em contrapartida, um antropólogo irá privilegiar o contato, a vivência no interior de um grupo, acompanhando seu cotidiano. Esse é o método qualitativo, pois traz mais qualidade aos dados, pela proximidade. Contudo, nessa abordagem, fica mais difícil fazer generalizações com maior índice de confiança. Trata-se de dois métodos complementares.

Celito Meier

6. IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA

Aprender a fazer sociologia é aprender a buscar e a reconhecer as relações ocultas que existem entre os fenômenos sociais. Com isso, veremos que os fenômenos sociais têm uma história. Eles foram produzidos; não são naturais. Assim, a temática da sociologia é a nossa vivência cotidiana, problemas e desafios de longa data.
Contudo, essa realidade, que nos é familiar, receberá nova ótica, novo jeito de ser abordada que nos possibilitará uma visão sistêmica da realidade, uma noção da complexidade do real. Por isso, a presença do olhar sociológico traz a marca de um inicial distanciamento em relação a espontânea percepção do senso comum.
Em decorrência, os fenômenos e os problemas sociais se tornarão problemáticas sociológicas; ou seja, a sociologia lança seu olhar sobre os fenômenos sociais e elabora um estudo, de forma teórica e sistemática. Com essa postura, a sociologia se afasta do sentir comum que caracteriza os indivíduos em seu viver cotidiano, possibilitando a desnaturalização dessas primeiras visões culturais.
Assim, compreendemos a sociologia como estudo sistemático do comportamento social e das interações humanas, buscando conhecer as condições que influenciam o comportamento das pessoas. Nesse sentido, pode ser compreendida como ciência social, que constrói estudo científico da sociedade.
Entre os objetivos das ciências sociais destaca-se o esforço em identificar o que não está evidente, buscando explicitar as relações causais existentes entre os fenômenos sociais, não transparentes ao senso comum. Em decorrência, o que identifica o papel do sociólogo são a observação e a análise das forças sociais e das tendências que podem ser generalizadas ao relacionar fatos sociais.
Essa habilidade conquistada de perceber os nexos existentes entre a vida cotidiana dos indivíduos e os problemas sociais mais gerais recebeu o nome de imaginação sociológica, denominação criada por Charles W. Mills (1916-1962), que assim se expressa:
“Ter consciência da ideia da estrutura social e utilizá-la com sensibilidade é ser capaz de identificar as ligações entre uma grande variedade de ambientes de pequena escala. Ser capaz de usar isso é possuir a imaginação sociológica”.

(MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. p.17).

Dessa forma, a imaginação sociológica possibilita a compreensão do macro cenário histórico e sua significação para a particularidade da vida dos indivíduos e dos grupos sociais. Trata-se do cultivo da habilidade da percepção do jogo que se desenvolve entre o indivíduo e a sociedade, das relações que constituem o fato social.

Celito Meier

KARL MARX: O MATERIALISMO HISTORICO E DIALETICO


“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser,
mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência” (Karl Marx)
Contra a política liberal: a dimensão política do ser humano

Com o pensamento de Marx (1818-1883), estamos diante do processo de crítica da política liberal. O liberalismo acentuava uma concepção individualista de homem. Nessa visão, o homem era indivíduo portador de direitos naturais, entre os quais o direito à propriedade privada. Nessa concepção, o pressuposto subjacente é a de que a propriedade privada é um direito natural, socialmente útil e moralmente legítimo, uma vez que estimula o trabalho concorrencial e competitivo, combatendo o vício da preguiça e estimulando o crescimento social.
Contudo, Marx parte de outro pressuposto. O homem é essencialmente ser histórico e social, marcado pela produção de sua existência em sociedade. Por isso, o homem não pode ser entendido de forma abstrata e isolada. Marx e Engels, em A ideologia Alemã escrevem: “nós conhecemos somente uma única ciência: a ciência da história”; ou seja, as relações históricas que acontecem entre os homens determinam a forma de pensamento e as instituições sociais e políticas do povo.
Para Marx, o nosso jeito de ser e pensar é determinado pelas relações sociais de produção. Isso significa o termo materialismo. Nele, a consciência humana é determinada a pensar as ideias oriundas das condições materiais. Materialismo se opõe a idealismo. No caso, Marx passa a se opor ao idealismo de Hegel, que considera que são as ideias que movem o mundo. Para Marx, Hegel é pensador utópico e ideológico, pois interpreta o mundo de cabeça para baixo.

Marx passa a criticar Hegel por este absolutizar dados ou fatos históricos, transformando-os em verdades filosóficas; ou seja, para Marx, Hegel desconsidera o processo histórico e dialético de constituição de um fato. Com efeito, para compreender e transformar o mundo, é preciso sair de um pensamento essencialista, a-histórico, que fica preso nas nuvens, desvinculado da realidade
Na condição de seres sociais, somos decorrência da práxis, da ação, dos conflitos históricos. Isto é, a matéria nos define. O materialismo é histórico, pois a sociedade e a política não são de instituição divina nem naturalmente dadas. Ao contrário, nascem e dependem da ação concreta dos seres humanos situados no tempo, fazendo história. O materialismo histórico pretende-se explicativo da história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infraestrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as ideias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc.).
Assim, a base da sociedade é a produção econômica. Sobre esta base econômica se ergue uma superestrutura, um estado e as ideias econômicas, sociais, políticas, morais, filosóficas e artísticas.

O MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO

Para Marx, as relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas, econômicas, sendo estas as determinantes. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, bem como modificam a maneira de ganhar a vida, modificando todas as relações sociais. À medida que mudam os modos de produção, a consciência dos seres humanos também se transforma.
Dessa forma, o ponto de partida é a vida real, as relações materiais de produção. Por isso, ao contrário do que muitos afirmam, não são as ideias humanas que movem a história, mas as condições históricas que produzem as ideias em cada época. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Mais uma vez dizemos, portanto que as ideias são linguagens da vida real, expressão das relações vividas no cotidiano.
A dimensão dialética da história: as lutas dos contrários
Partindo do pressuposto de que as ações humanas se desenvolvem mediante o conflito de classes, temos que a história não é retilínea, um progresso linear e contínuo, uma sequência determinada de causa e efeitos, mas dialética. Assim, a história é processual, marcada por transformações sociais determinadas pelas contradições entre os meios de produção e as forças produtivas. A luta dos contrários move a história. Por isso, a história é uma permanente dialética das forças entre poderosos e fracos, opressores e oprimidos; a história da humanidade é constituída por uma permanente luta de classes, como deixa bem claro a primeira frase do primeiro capítulo d’O Manifesto Comunista: “A história de toda sociedade passada é a história da luta de classes”. Dessa forma, percebemos que as classes são os produtos das relações econômicas de cada era. Assim, apesar das diversidades aparentes, escravidão, servidão e capitalismo seriam essencialmente etapas sucessivas de um processo único que caminha para o comunismo como etapa final desse processo.
Por isso, o materialismo é dialético. A dialética nos revela a Lei da ação recíproca e da conexão universal, isto é, que tudo está em relação; a lei da transformação universal e do desenvolvimento incessante, tudo se transforma. Nessa dinâmica, as transformações se originam da luta dos contrários. Por isso, a luta dos contrários é o motor do pensamento e da realidade. A partir do confronto dos contrários, nascerá o terceiro e novo elemento, em momento posterior. Esse materialismo dialético nos revela a materialidade do mundo, ao afirmar a anterioridade da matéria em relação à consciência; ou seja, a consciência será formada a partir das relações materiais e sociais. Ou ainda, em outras palavras, a vida espiritual da sociedade, seus valores e suas ideias são um reflexo da vida material.
Encontramos em Marx, portanto, uma crítica à concepção idealista da vida. O homem é concebido singularmente como ser capaz de produzir suas condições de existência, tanto material quanto ideal. Assim, não há uma essência prévia; a essência do homem é algo que ele próprio constrói. Por isso, a essência será a própria história em construção. Dessa forma, o homem é, inseparavelmente, produto do meio em que vive; e o meio, por sua vez, é construído a partir das relações sociais em que cada pessoa se encontra. Assim como o homem produz o seu próprio ambiente, por outro lado, esta produção da condição de existência não é livremente escolhida, mas sim, previamente determinada. O homem faz a sua História, mas não a faz em condições por ele escolhidas. Há, aqui, um certo determinismo histórico, uma vez que todo homem nasce sempre dentro de um meio, que o marca profundamente.

KARL MARX:: TRABALHO, IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO

Marx tentou demonstrar que no capitalismo sempre haveria injustiça social, no qual a riqueza é resultante de um processo de exploração sobre o trabalhador. O capitalismo, de acordo com Marx, é selvagem, considerando que o operário produz para o seu patrão, produz riqueza e colhe pobreza. Dessa forma, o capitalismo se apresenta necessariamente como um regime econômico de exploração e degradação da vida, sendo a mais-valia a lei fundamental do sistema.
Considerando que o trabalho, que deveria ser condição de liberdade, torna-se fonte de opressão, Marx condena a forma capitalista de organizar o trabalho, degenerando-o. Nele, o fruto do trabalho não pertence ao trabalhador, e este permanece preso ao patrão. Dessa forma, o trabalho aliena o operário. Vale lembrar aqui o sentido da expressão alienação. Etimologicamente, originada do latim alienare, alienus, alienação significa tornar-se preso, alheio a si, estranho a si, pertencente a um outro. Assim, a alienação do trabalho acontece na medida em que se manifesta como produção de um objeto que é alheio ao sujeito criador. Dessa forma, o operário se nega (é negado) no objeto criado. É o processo de objetificação, coisificação ou reificação. Por isso, o trabalho que é alienado permanece alienado até que o valor nele incorporado pela força de trabalho seja apropriado integralmente pelo trabalhador. Havendo essa apropriação do valor incorporado ao objeto, graças à força de trabalho do sujeito-produtor, promove-se a negação da negação. Ora, se a negação é alienação, a negação da negação é a desalienação, a libertação.

A IDEOLOGIA E O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO ESTADO

Considerando a vida social dos humanos, divididos em classes, temos o conflito como mola que move a sociedade. Por um lado, encontramos o conflito entre os proprietários privados dos meios de produção movidos por seus interesses de fazer crescer sua propriedade. Paradoxalmente, embora estejam em concorrência, precisam uns dos outros. Assim, constroem certas regras para que um não destrua o outro.
Por outro lado, temos as contradições entre eles e os não proprietários (escravos, servos, trabalhadores livres). Para a consciência social, esse conflito e essas contradições aparecem, equivocadamente, como conflito e contradições entre interesse particular e interesse geral. Ora, somente aparecem assim, pois a realidade é bem outra. Na verdade, no capitalismo o motor é o interesse privado e não o interesse coletivo. Por isso, a função da ideologia é fazer uma realidade aparecer de uma forma que convém a um grupo.
Reconhecendo-se incapazes de controlar os não proprietários, junto ao quais a revolução popular é sempre possível, os proprietários dos meios de produção, movidos pelo interesse que os une, precisam criar uma instância com força suficiente para dominar os não-proprietários de forma aparentemente correta, legítima e universal. Para tanto, os proprietários criam o Estado como um poder separado da sociedade, detentor das leis, do direito e da força necessária para gerenciar a estrutura econômica. Em caso de aparente perigo à manutenção da estrutura, o Estado terá o direito ao uso da violência.
Por essa razão, se torna compreensível a necessidade de o Estado aparecer como encarnação do interesse geral, de forma invisível e impessoal. Cria a ideologia do Estado a serviço da justiça, da “ordem e do progresso”, mas, como é próprio da ideologia, em sentido marxista, trata-se de um mecanismo de mascaramento da dominação e da opressão histórica. Cabe à ideologia o papel de impedir a percepção das contradições. Assim, a Ideologia moderna passa a exercer o papel outrora desempenhado pelos mitos e pelas religiões. Quando aceitamos a ideia de que o Estado não se origina da vontade de Deus, mas é oriundo das ideias de estado de natureza, direito natural, contrato social e civil, estamos pressupondo que a consciência humana, independente da história conflitiva dos interesses, tendeu automaticamente para isso.
Assim, a ideologia funciona como processo de ocultamento da origem da sociedade, velando a realidade da luta de classes, negando as desigualdades sociais oriundas da exploração, reconhecendo-as como decorrência do empenho ou preguiça pessoal. Dessa forma, a ideologia consegue criar a ideia de Estado como comunidade, onde convivem homens livres e iguais, impedindo nas pessoas o reconhecimento da natureza de classe do Estado.

A PRAXIS REVOLUCIONARIA

Radicalmente crítico da práxis liberal e da concepção protestante do trabalho, marcado pelo esforço e pela disciplina, objetivando o controle moral dos indivíduos, Marx define o homem como ser de práxis social e histórica. Na atuação histórica, o ser humano se constrói. A subjetividade humana, o sujeito ao trabalhar, se produz no ato da criação. Em todo fazer há fazer-se. O objeto criado torna-se expressão do criador.
Considerando a realidade de luta de classes e a divisão social do trabalho, a práxis humana se dará nessas condições históricas dadas. E considerando que a consciência é determinada pelas condições materiais em que vive, é preciso discernir a realidade para perceber se as ideias veiculadas são representação da realidade ou ideologia, inversão da realidade.
Considerando que o capitalismo gerou o trabalhador despossuído, ausente de todas as posses e propriedades, transformando-o em “livre vendedor de sua força de trabalho”, expropriado, submetido às regras do modelo capitalista de exploração, a única saída para os trabalhadores conquistarem a sua dignidade humana fundamental será a revolução, uma vez que a burguesia detém todos os recursos materiais e intelectuais, jurídicos, políticos e militares para a manutenção dessa estrutura econômica a seu serviço.
Por isso, a emancipação histórica dos trabalhadores será tarefa e realização dos próprios trabalhadores. Será a práxis revolucionária da atual classe trabalhadora que criará a sociedade comunista, sem propriedade privada dos meios de produção, sem poder estatal, verdadeiramente livre e igualitária. Com esse projeto, Marx resgata o valor do trabalho humano, como práxis humana criadora da dignidade pessoal e coletiva